Sobre

Sobre muitas palavras escritas,

e outras que se subentendem às lidas.

Sobre conjuntos de pensamentos,

arrumados na face de um conto ou na pele de uma crónica,

quiçá nos tendões deste mesmo poema.

Sobre uma narrativa da seriedade da terra,

sobre dois parágrafos sumarentos, outro mirabolante,

sobre uma frase mais harmónica e uma palavra que foi flecha.

Sobre a densidade óssea de uma personagem,

a ilegitimidade de um diálogo

e uma decisão sem a mínima graça:

por exemplo, sobre o murro de um desfecho.

Sobre a descrição de uma nuvem,

sobre uma papoila,

sobre a insignificância de uma cidade na perspectiva de um pombo,

sobre a mesa onde se apoiam os cotovelos,

sobre a tensão de uma ruga,

sobre a vista da janela do meu quarto sem janela,

sobre uma vontade pungente de homenagear uma pessoa que não se conhece,

sobre a magnitude de uma paisagem de pedras,

sobre uma confusão,

sobre a infância emoldurada sobre o móvel,

sobre uma dúvida que aturde, como um problema que não constava no teste,

sobre a miragem de um desejo,

sobre uma memória pouco nítida, outra evidente,

sobre uma dor,

sobre uma carta sem sobrescrito,

sobre o contrário do que foi dito

e

sobre assuntos tão defuntos e outros que juntos

parecem estáveis.

Sobre a geometria de uma ideia,

o hálito de uma opinião, o vértice de um desabafo, o remoinho de uma zanga,

sobre uma alegoria,

sobre o diâmetro do tempo…

Sobre coisas concretas,

a mundanidade, as rimas sem idade,

sobre um arrojo,

a filosofia possível, a permitida dialéctica,

sobre esta tentativa de introdução poética

onde a anáfora se desfaz pontualmente.

Sobre um simples repositório de textos,

sobre a probabilidade de um erro linguístico me ter escapado,

sobre uma explicação excessiva, enjoativa,

sobre as dificuldades da palavra consenso.

Sobre uma fome sem estômago de esculpir uma realidade,

exigir-lhe um sentido num papel sem espessura,

sobre um processo de transpiração criativa,

sobre um som que se repercute p’lo infinito de um sólido,

e ainda sobre algo de muito importante,

que agora me escapou.

 

Como num poço,

quando nos distraímos,

sobre que questões vale a pena debruçarmo-nos?

Sobre nós, Deus, a morte, aquele caule que irrompe da calçada polida

(…)

sobre os possíveis contributos

de um homem para a vida,

como um escudeiro de cavaleiro que combate sem espada,

sem armadura porventura.

 

Sobre mim,

sim,

irremediavelmente.

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2018