Rua

Pense-se numa rua antes de ser rasgada, muito antes de ser rasgada: num descampado ou num terreno inculto, povoado por estevas, tojeiros e sargaços, aqui e acolá. Então, alguém se apodera desse baldio e amontoam-se pedras segundo um lineamento. Constrói-se um muro e mais adiante outro, sobranceiro a um terceiro, e já são nítidos os bordos de um carreiro. É visível a compartimentação do espaço e o desenho das extremas, e nada existe que não tenha dono, neste momento. Escavaram-se poços, abriram-se leiras, semeou-se a terra, colheu-se o que medrou, deram-se os restolhos ao gado, os casebres velaram as courelas e cada um se cevou durante o tempo que pôde. Houve carroças e muares a puxá-las e alfaias agrícolas a transitar e almocreves e crianças a conduzir os burros albardados e pais de muitas famílias e numerosas. E por tudo isto ter existido houve uma vereda que virou caminho e finalmente estrada, com caixeiros-viajantes a cruzá-la, contrabandistas e assassinos até. As casas multiplicaram-se, construiu-se uma capela, depois um cemitério, e o povoado cresceu e engolfou mais terrenos, ficou coeso, chamou gente e gerou filhos e casais e novos filhos ainda, ganhando tradição e sobretudo identidade. A ruralidade esvaneceu-se. Mas a estrada que cortava esta aldeia era desgrenhada, o piso tortuoso, quando chovia ainda apareciam poças e lama e havia alturas em que, por isso mesmo, o carteiro não vinha. Mandou-se alisar o pavimento, colmatar os sulcos e calcetá-lo, plantaram-se árvores nos bordos, e ergueu-se um coreto ao lado, quando a filarmónica assim o exigiu. As árvores cresceram, as sombras teceram-se à calçada e houve bancos a ser postos paralelos ao passeio. E um dia, quando daquele solo brotou um Homem heróico, baptizaram-na com um nome, e esta ganhou o estatuto de rua, e principal.

Hoje, sentado num desses bancos, enquanto descrevo a história desta rua debruada de tílias, alcatroada e com semáforos e carros de pneus, debato-me com um problema literário (mas certamente ainda mais complexo do que aparenta ser): a rua tem poucos metros, e é fácil percorre-la de um lado ao outro – quantas vezes terei eu de atravessá-la para integrar a sua descrição?

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2015