Alice Della Rosa

Alice Della Rosa odiava a escola de esqui. Perdia a desenvoltura, assim que os adultos lhe vestiam o equipamento. Perdia a delicadeza dos braços esguios, que desapareciam entre as gordas mangas do casaco, o cabelo não esvoaçava, e o seu sorriso fechava-se. Com os pés afundados nas botarras, era incapaz de se manter de pé, de deslizar um, dois, três metros sem antes cair. E continuamente entrava-lhe a neve pela gola do casaco, para dentro das luvas, derretendo sobre o gorro, ensopando-o, e transpirava. Odiava tudo aquilo, apetecia-lhe despir-se, ficar nua, de cuecas apenas, em protesto. Como quando se escondia no roupeiro, à hora do banho, ou quando saltava desse roupeiro para outro, durante a perseguição das criadas; em sua casa, contudo, havia poucos roupeiros, um ou outro armário maio – restava somente a despensa – e Alice já esgotara os esconderijos… Por isso a sua existência poderia descrever-se de modo risível, mas não. A Alice, no fundo, o riso era uma divisão que lhe estava vedada; porventura riria às escuras, dentro da despensa, tapando a boca com as mãos – mas a esse espectáculo ninguém assistia. Era bonita, tinha um rosto harmónico, de feições leves, os cabelos arruivados, de um brilho quase magnético, como fios de cobre. Para a idade, era alta, e tinha seis anos. Um dos seus dentes de leite cairia dentro em breve, e ela entretinha-se a abaná-lo com a ponta da língua. Sacudindo-se, removendo o carapuço, com o dente quase solto, emergia da neve concentradíssima no seu novo passatempo, e decidida dirigia-se aos balneários. Os pais conversavam junto ao teleférico e Alice, como sempre, escapulia-se aos seus olhares. Estaria acompanhada, mas estava entregue a si mesma. E desembaraçada de todo o peso com que lhe haviam forrado o corpo, removidas todas as camadas de roupa, entrava no bar da estância, trepava para um dos assentos rotativos, dava voltas de frente para o balcão. Advertiam-na para parar com aquilo, que o chiar das molas incomodava os clientes. Ela percebia (ou talvez não) e apoiava os cotovelos sobre o tampo de madeira, virava-se para o lado das garrafas, dos espelhos com armações de madrepérola, do homem gordo, de rosto patibular, de olhos como bobines, que a advertia para estar quieta. Na verdade, assim que os seus lábios se descosiam, e embora ao rosto aflorassem os vincos das rugas, todo e qualquer indício de bruteza se desvanecia, e o homem do balcão, de olhos azul-claros, compadecia-se de Alice. Imóvel, quase estátua, hipnotizada pelo multicolor dos vidros da garrafeira, de pernas suspensas e pés ainda longe do chão, emoldurava o que se poderia classificar de inocência desamparada. Por isso o homem gordo enchia um copo de leite, aquecia-o com no jacto da máquina do café, posicionava-o diante da criança, voltava as costas. Alice agarrava-o com as duas mãos – era um grande copo de leite, fumegante: agarrava-o como um adulto que segura um balde também grande – e a espuma chegava-lhe às bochechas. Despertava-se-lhe depois essa moleza de estômago reconfortado, e deitava-se no sofá castanho, de frente para as janelas translúcidas ainda a cheirar a limpa vidros. Deitava-se de frente para as montanhas, barriga para baixo, contemplando as escarpas polvilhadas de neve, os cumes pontiagudos – fazendo, no ar, desenhos com as mãos. Agradava-lhe a sensação de ter as pontas dos dedos aquecidas, os pés já só nas meias, os cabelos soltos: aquele oásis de liberdade. A certa altura distraía-se (as pessoas agrupavam-se do lado de lá, conversavam, enchiam a tela com os tecidos florescentes dos equipamentos) e Alice debruçava-se sobre o cesto dos livros. Traziam-nos os ocupantes do hotel, os esquiadores, os fotógrafos de Domingo: ali ficavam, numa pilha prestes a desmoronar-se. Havia revistas, almanaques, coisas estrangeiras, até de caracteres como hieróglifos. Alice retirou um, abriu-o sobre o colo, assopro-lhe o pó. Era um livro grande, as mãos podiam deslizar sobre as páginas, tinha esquemas, tinha fotografias. Numa das fotografias aparecia uma mesa com um tampo verde e três homens debaixo da lâmpada de um candeeiro. Não compreendia a sequência dos esquemas, as restantes fotografias em redor da mesma mesa, dos mesmos homens. Era um livro sobre outro livro, uma discussão em torno desse outro livro, sobre um julgamento, sobre um início e sobre um fim. Era uma tentativa de conhecimento do que cabe entre um início e um fim de uma história, mas Alice não o compreendia. Alice não compreendia, como não compreendem as pessoas, quando afirmam ter desvendado toda a história de outra pessoa; das pessoas, a bem ver, as outras pessoas só conhecem o início e o fim. Alice conseguiu juntar algumas letras, regozijou-se ao descobrir «Paolo», o nome do pai. Só que o pai de Alice não tinha nome, a sua presença era somente de fiscal, de observador, de intendente passageiro, e por isso Alice existia anonimamente. A sua existência era desnaturada, trágico-cómica. Alice flutuava num mar de destroços sem nunca ter aprendido a nadar e as tábuas a que se agarra eram os seus apetecimentos. Por isso fechou o livro, atirou-o sem ver onde cairia. Lembrara-se dos corvos. Havia uns corvos de montanha, de plumagem verde, que revolteavam o lixo das estâncias da região. Rasgavam o plástico preto do saco, mergulhavam os bicos na gordura coagulada das latas de conservas, lambuzavam-se. Alice gostava de observá-los, os corvos pareciam não fazer caso de nada. E saiu. O homem do balcão seguiu-a pelo canto do olho, seguia-a demoradamente, paternalmente, abrandando os gestos, sustendo com uma pinça, sobre um copo ainda vazio, duas pedras de gelo. Com duas pedras Alice afugentou os corvos. Não deixava que os corvos ensaiassem nova aproximação, outra aterragem, e punha-se em cima do contentor, atirando os braços para cima, fazendo-se gigante. Era a sua manifestação de dominância: era uma brincadeira séria. Tinham-lhe recheado o quarto de brinquedos, empanturrando-a de possibilidades, de distracções, como se a um peluche bastasse ser chumaçado para se tornar peluche. Alice era um peluche, mas nem era um peluche sequer. Era um adereço, uma alegoria. Não tinha amigos, não a sustinham nunca por um abraço: as outras pessoas não existiam. Apenas existiam os passos pelo corredor, os olhares reprovadores, os chamares de costas direitas, as noites sem que dela ninguém se viesse despedir. Por isso atirava pedras a pássaros, para dentro dos charcos, contra os muros velhos da quinta. Adorava as tardes sem relógio, a vida longe dos ponteiros, quando saía para o quintal, e rasgava as calças e esfolava a pele e enchia os cabelos de folhas. Nessa tarde desatou a correr encosta acima, a esbracejar, a imitar o crocitar dos corvos. Tropeçou, bateu com a cara numa rocha que a neve cobria, rasgou o lábio, o dente que abanava afundou-se no tapete branco. Chorou: mas ouviram o seu choro. Quando os pais chegaram, tinha a boca roxa, as pálpebras inchadas, o nariz com ranho. Segurava-a a enfermeira do posto médico, como num embalo, e Alice dormia, com a cabeça encostada ao peito da enfermeira… Então o pai agarrou-a pelo braço, puxou-a para o estrado, e o seu cobertor escorregou-lhe dos ombros. O pai curvou-se, esticou o dedo. Esticou o dedo, como o cano de uma pistola. Depois, vieram as palavras. A valsa das palavras, a gramática das regras, os índices da conduta. As palavras atingiram-na como uma avalanche, como se cada uma fosse um floco de neve, e todas juntas um glaciar que se desprende encosta, que arrasa tudo o que se encontra abaixo de si. Mas Alice não se mexeu. Permaneceu imóvel, como uma pedra de frio. Não podia esconder-se no roupeiro, com as mãos sobre as orelhas, como fazia em casa, por isso não descolou os pés, não moveu um músculo. O pescoço permaneceu tombado, e os olhos embaciaram-se-lhe de lágrimas: mas permaneceu com força. Faltaria muito, por certo, reservar-lhe-ia a vida outras dúvidas, infinitos difusos, mas não estava sozinha. Tinha-se a si, finalmente, ciente do sofrimento, do tiritar completo dos membros, dos lábios gretados, de uma tira de vento que atingia como um gume. Aprendera a vida toda, aos seis. Aprendera a vida toda, logo no início, e com um pouco de esforço sabia levantar-se sozinha…

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(O presente conto surge como resultado de um exercício de escrita: pegando na primeira e última frases do romance A solidão dos números primos, de Paolo Giordano, o objectivo era construir uma história…)

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André Almeida Paiva

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2019