Rua III

Só que a folha voou para bem alto, na senda de uma nuvem, e o homem pôs a trouxa às costas, enxotando o cão. Então desatei a escrever, não sei se em linha única, não sei se ignorando os acentos e os sinais de pontuação. Porque agora já nada importava e era a esferográfica que ditava, sobre o papel, as ordens do espaço… Alugou-se maquinaria pesada, dessa de ganchos de aço, cilindros metálicos e engrenagens hidráulicas, e as carcaças do povoado foram arrasadas com a facilidade com que alguém alisa uma figura de areia. Nenhuma raiz sobrou por arrancar e tudo se processou a um ritmo vibrante, alucinante, estonteante – sincopado e ritmado – que se sobrepunha à velocidade da minha escrita. Foi assim que surgiu uma auto-estrada no lugar desse caminho de centímetros… Uma língua de asfalto reluzente, de quatro vias com guias sonoras e bermas sinalizadas, com separador central enfeitado de cevadilhas de pétala cor-de-rosa, trancada por viadutos, bordejada de vertentes com gabiões e malhas de protecção, com manilhas para drenagem de águas pluviais e caminhos de acesso rural protegidos por cercas de arame farpado. Um vaivém de pneumáticos, de tráfego crescente, coagulante junto às saídas e entradas de faixa, açodado de apitadelas e mãos no volante… Eu ensurdecia, e escrevia mais rápido, de olhos fechados, como quem foge, vincando as palavras nas páginas, desenterrando terrenos antigos – os terrenos da descrição – rememorando, revolvendo, recordando esse largo que ficava na aldeia da minha avó, o coreto do jardim-de-infância, as casas gandaresas de frente para a estrada, o cão sem pátria ao centro do campina, as copas das tílias da cidade, em rendas de prata…

***

O susto foi tremendo, desses que só um disparo do nervo vago provoca, pois um camião aproximava-se a toda à brida – faróis predatórios, grelha como bocarra assassina – e eu sentava-me em plena auto-estrada, imerso na ficção, cabeça vertida sobre o caderno, de pálpebras cerradas, e só por milagre é que ergui o pescoço, evitando o atropelamento, escapando à descrição… À descrição que agora, parece-me, segue sozinha – real – em direcção a um destino que já não me pertence.

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André Almeida Paiva

2018

(ver Rua https://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua/);

(ver Rua IIhttps://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua-ii/)

4600 milhões de anos até hoje

A fenda alargou, estendeu-se pelo chão barrento, e o bloco dividiu-se em dois. Recolhidas as cunhas, pousados os maços, os homens tomaram fôlego, limpando o suor do rosto: os seus nomes não se sabem, não constam dos compêndios de História… Mas do bloco tombado esses homens talharam a pedra que hoje sustém todas as outras.

 

No princípio, recuando aos milhões das eras, não havia estes vales e montanhas, estas estradas e cidades: a região existia imersa como outra região, aquática-salgada-oceânica – uma gigantesca bacia de sedimentos – habitada por seres de corpo segmentado, hoje petrificados em expositores de museus. Extinguiram-se as trilobites, e também esse mar, as rochas que o enchiam noutras rochas se transformaram – o argilito em ardósia, o calcário em mármore – e de novo se inauguraram os ciclos tectónicos.

O tempo não muda de velocidade, excepto talvez quando o tentamos compreender. E enquanto o Homem não entendeu o tempo das pedras partiu-as, dimensionou-as, esculpindo-as para erguer templos e construir impérios. Os romanos governaram um dos mais prósperos, e nele havia uma província – a augusta Lusitânia – em que a capital se fez de mármore, proveniente desse lugar cujo nome já surgia na boca dos viajantes.

Modificaram-se as gentes de Estremoz, os trajes e os costumes. Isto mais tarde, porque a técnica sofreu melhorias, a extracção tornou-se rápida, a torre de menagem cresceu e as fachadas marmóreas começaram a alinhar-se pela vila em crescendo. Pedra alva, nobre, brilhante como grão de açúcar, esventrada à terra pelo pedreiro especializado, dentro do fosso cada vez mais profundo. Por isso el rei D. Manuel I ordenou a construção de um convento a seu estilo, gótico e ogival, de motivos naturalistas: um convento para retiro de cavaleiros e morada de freiras de clausura, da Ordem de Malta.

Houve o tempo para admirar a chegada do renascimento, e o de outras arquitecturas, que aumentaram a cércea, robustecendo-a, e acrescentando divisões ao edifício. Muitas pessoas caminharam sobre os seus pisos ladrilhados, e outras sob ele se sepultaram. Entre claustros se escreveram páginas de cultura e tradição, da olaria à culinária, e porventura uma ave terá feito o seu ninho no recanto mais abrigado do capitel. E mesmo depois do sismo de 1755 a vida conventual continuou a sua lenta oração, na mesma solitude dos séculos passados.

A última freira faleceu no final do século XIX, deixando o espaço de ser convento. Ficaram nos frisos as cruzes Maltezas, nos tectos os frescos decorativos – ficou o fontanário ao centro do jardim – e quando a ordem foi dada pintaram-se palavras nas cantarias. O monumento converteu-se em Hospital, e assim se manteve até à década de 90.

À volta do convento, em redor da cidade e povoados vizinhos, as pedreiras foram alastrando, espalhando economia e estreitando os seus buracos, por vezes desordenadamente. Paredes nuas, verticais, listradas de argila do solo de cima, que servia para vinhas e olivais: lentamente o Homem descia, cada vez mais tecnológico, lentamente a pedra se içava à paciência das gruas.

Chegaram os anos burocráticos, e demorou algum tempo até que o Museu se inaugurasse. A exposição principal ocupou a sala da antiga Enfermaria, e o dinossauro infiltrou-se entre as arcadas, na parte de fora. Em 2005 abriram-se as portas, e o público pôde visitar um Museu sobre a Terra, geológico, experimental e didáctico, onde a ciência do tempo mais demorado aparecia explicada à velocidade das palavras.

 

É um dos museus que engloba a rede Ciência Viva. Chama-se Centro Ciência Viva de Estremoz, e está hoje aberto, para contar a história dos últimos 4600 milhões de anos – que ditos assim de chofre, numa linha de texto apenas, nem parecem muito tempo…

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2018

 

 

Publicado na SAPO Viagens, em

https://viagens.sapo.pt/viajar/bilhete-postal/artigos/4600-milhoes-de-anos-ate-hoje

Rua II

Mas o autocarro buzinava e eu entrei, levando comigo uma folha de tília, que à pressa espalmei entre as folhas do caderno. E durante a viagem remoí na pergunta em suspenso, até que hoje, neste tempo de agora, regressei a essa rua, que já só é uma linha da largura de dois passos, conservando nesse homem o seu único transeunte. Cheguei de autocarro – que dia é hoje? – mas o veículo estacou a marcha longe da antiga paragem, na barriga de uma curva em terra batida. Porque já não havia paragem nem bancos, e a natureza havia regressado, lenta ritmada precisa, como uma sinfonia que cresce em silêncio. Nenhuma parcela de terra exista que tenha dono, agora. As gramíneas atapetaram o que era asfalto e piso calcetado, os muros esbarrondaram-se à séria gravidade do abandono, das fachadas das casas escorre o negrume dos limos secos, há cadeados em portões, fechaduras trancadas de ferrugem, cacos de vasos não regados e teias de aranhas nas caixas dos correios. Escuta-se o raspar metálico de um moinho desconjuntado e ainda o trilar de um pardal pousado num fio sem electricidade. Não há qualquer noção de propriedade, o homem que ali habita nem sequer é oriundo da região, na cova da mão carrega um livro de Jean-Jacques Rousseau, e quando o saudei elucidou-me quanto ao facto de carregar as suas tralhas numa mochila, de nada em volta lhe pertencer, da natureza não se estabelecer – e esclareceu-me ainda quanto ao cão, que era sem paradeiro, vagabundo dessas estradas que se ocultam dos mapas, e que apenas o seguia na expectativa de um osso. Mas… Folheio o caderno até às linhas de texto do passado (ainda não tirei a tampa à caneta para escrever), leio apenas, sôfrego incrédulo minucioso, revendo os elementos desapercebidos. Um aro de cinzas desenha-se onde se erguia o coreto, sem dúvida que se arrancaram as tábuas e as queimaram, um projéctil destruiu os vidros tricolores dos semáforos, trepados agora pela obstinação das heras, nos cemitérios a vegetação excede a altura das campas, arrancou-se o relógio da torre sineira, não há números nas portas nem legendas debaixo dos sinais e a placa com o topónimo desbotou ao calor e à geada.

Agacho-me, pego num graveto, distraio-me num desenho que são só riscos, um vento rasante rouba-me a folha de tília de entre as folhas de papel, logo a resgato em pleno voo, analiso-a nas suas páginas inferior e superior, verdes vivas de nervuras – preciosíssima folha, esta – procuro uma resposta, mas ao invés pergunto-me – pergunto – será que nesta folha ficou guardada toda a descrição da antiga rua?

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*André Almeida Paiva

2018

(ver Rua – https://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua/)

Cidade dourada

A estrada ainda não deu entrada na cidade mas já se avista a torre da catedral. Alta e esculpida, de pináculos perfurantes, magnetiza-nos as atenções à medida que nos aproximamos, e quando a luz do sol lhe incide pelo ângulo certo a pedra de que é construída quase adquire um brilho de mel. Dão-lhe o nome de “cidade dourada” e o epíteto assenta-lhe bem, pois Salamanca é, sem sombra de dúvida, uma cidade cuja beleza nos encanta.

Por certo será por causa da riqueza edificada do seu centro histórico, que é património mundial da UNESCO. Para além das catedrais que se juntam nessa monumental peça religiosa — a catedral velha, mais gótica, à catedral nova, barroca, e cuja torre do relógio se entortou ligeiramente ao passar do terramoto de 1755 —, há todo um conjunto de recantos e fachadas por explorar, como se uma febre construtiva houvesse decorado, de uma vez só, todo o seu núcleo citadino. Há a capela de San Esteban, a famosíssima e elegante Plaza Mayor, a Clerencía e a pitoresca Casa das Conchas, decorada a quase 300 vieiras, e ainda o portal da Universidade — que é das mais antigas do mundo —, rendilhado de pormenores escultóricos e ainda de um batráquio que hoje é também símbolo de Salamanca e preenche as prateleiras das lojas de souvenirs. Mas toda uma história mais antiga a atravessa, de muçulmanos, bárbaros e romanos, e por certo se recomenda atravessar a ponte que estes últimos construíram sobre o Tormes, para que as torres, os campanários e as cúpulas nos desafiem o olhar uma vez mais…

Como seria, se substituíssemos a pedra de uma cidade por outra diferente? O xisto lasca-se, forra os telhados das aldeias de montanha que há espalhadas por esse miolo de Portugal, a alvura do mármore que só se encontra nesse triângulo do Alentejo quase ofusca o visitante num dia de Verão: o Porto é granítico, mais denso, de uma beleza austera e fortificada, Lisboa descansa à margem do Tejo, branca, calcária e luminosa, como alguém que se deita a apanhar sol… Pois que seria se trocassem a rocha de uma cidade por outra — se o Porto fosse sedimentar e Lisboa magmática?

Pela tarde lenta: o sol cai morno, de viés, e as ruas salamanquinas enchem-se desse ruído bem castelhano, entregando-nos um convite para percorrê-las. De onde vem esta essência, esta beleza? Talvez seja da pedra, essa que é igual e repetida, revestindo todos os pormenores arquitectónicos. Chamam-lhe “Piedra franca” ou “arenisca de Villamayor”, é um arenito de quartzo com alguns feldspatos, vem (ou vinha) das pedreiras das imediações, serra-se e transporta-se com facilidade, é abundante e fácil de esculpir. Talvez seja por causa da pedra, desse seu castanho leve ou amarelo intenso, que a luz saia reflectida de outra maneira, com esse brilho aveludado…

***

É impossível percorrer uma cidade deste género sem tocar, nem que seja por distracção, nas pedras que lhe constroem as ruas. E em Salamanca, mais precisamente numa das portas da catedral, há mesmo uma pedra esculpida em que se deve pôr a mão, como promessa de boa sorte: não é uma rã — é sim um coelho — e de tantos Homens já lhe terem tocado o seu brilho mudou, parecendo quase metálico.

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2018

 

 

Publicado na FUGAS (PÚBLICO), em

https://www.publico.pt/2018/10/27/fugas/noticia/salamanca-cidade-dourada-1848521

 

O aniversário

Na tarde de 1 de Novembro do ano de 1889, numa sala decorada com os motivos da classe aristocrática alemã, uma criança desenhava um mapa a lápis de cera.

A luz de Outono rompia das janelas com força, iluminando o tapete persa que havia ao centro, pelo que a criança desenhava no recanto onde havia sombra, sob o canapé de estofos bordados a flores: dobrava os joelhos e os pés baloiçavam no ar, a barriga espalmava-se no chão, as mãos desarrumavam os lápis de cor e o rosto erguia-se atento, com a língua de fora, numa busca primeira da perfeição.

Desenhava concentrada e longe dos olhares dos adultos, que tomavam chá no salão de convidados, decorado a mais tapeçarias e lustres pantagruélicos. Volta e meia movia o pescoço para cima, em busca dos contornos de um mapa recente, pendurado na parede: um mapa que um tio navegador oferecera de prenda à família onde cabia o planeta inteiro – a terra e os mares – com as fronteiras mais recentes e as ilhas mais remotas.

Não era especialmente talentosa a desenhar pela deriva da imaginação, mas gostava de copiar objectos e animais para depois os colorir; quem sabe esta criança não poderia ter sido um bom pintor de retratos, ou ter tido outra profissão até…

Aprendera na escola alguns dos nomes do Mundo, e já pintara todos os oceanos e o continente africano. Como o tio lhe contara histórias de África, das estepes e selvas e criaturas exóticas, pintou-a de um laranja muito forte. Agora pintava a Europa, e a zona do país onde sabia viver.

A certa altura, depois de coloridas as manchas da folha – a Europa e a Ásia de vermelho, e as Américas e Austrália de castanho – olhou para o desenho muito impressionada, quase mesmo estupefacta. E pousando os lápis de cera no chão levantou-se de um susto, furtivamente infiltrando-se em nova sala faustosa, em busca do estojo de costura da mãe.

Com uma tesoura recortou os continentes pelos bordos que traçara, e dispô-los sobre o chão, nas posições em que sempre os conhecera. Depois inventou várias brincadeiras – o aborrecimento disparara-lhe a criatividade – e numa delas representou o mundo ao contrário, com os continentes de pernas para o ar, encaixados nos oceanos também revirados. Num momento, no entanto, quando tudo ocupava a posição original, e quando olhava para as coisas como quem pensa depois de observar muito, experimentou algo radical, e provavelmente proibido: dobrou as Américas pela zona central, onde o papel era muito fino, puxou a parte do norte para baixo, de modo a acompanhar a curva de África, e encaixou a parte do sul na barriga do continente que pintara de laranja.

Confortavelmente satisfeita, girou as restantes peças do puzzle, e chegou a um resultado espantoso, onde a Europa e a Ásia também se juntavam ao conjunto estabelecido, e onde se podia também anexar a Austrália, e um pouco do que havia a sul, que era um pedaço de terra cujo nome esquecera. Entusiasmada, agarrou um punhado de alfinetes do estojo de costura, prendeu o seu mapa num novo e diferente – o de um supercontinente – e foi mostrá-lo aos adultos, com uma pergunta a saltar-lhe debaixo da língua:

“Não sei se  alguém já pensou no mesmo que eu, ou se isto tem mesmo um significado importante – mas e se os continentes estivessem unidos?”

Incomodados com o distúrbio do petiz, os adultos mostraram-se desinteressados. A mãe aconselhou-o mesmo a abandonar a sala, soprando-lhe uma resposta ambígua, mas certamente desencorajadora:

– Filho, os continentes sempre estiveram onde estão, onde aparecem nos mapas.

Desincentivada, essa criança não fez mais nenhum desenho essa tarde. Durante algum tempo foi sentar-se à janela, que dava para o pátio da casa do lado. O vizinho, Alfred Wegener, colega de escola mas do ano dos mais novos, fazia anos. Nunca se conheceram, e nunca foram à festa um do outro…

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André Almeida Paiva

2017

(ver I https://www.andrealmeidapaiva.pt/projectos/)

Homenagem a um quilómetro da N18

Estremoz-Évora: neste troço a N18 segue paralela à A6, galgando uma cauda da Serra D’Ossa, que aqui se impõe como relevo principal. No entanto, à excepção de um cortejo de curvas nas vizinhanças da ribeira que é sazonal, é uma estrada rápida, contrariando o estereótipo da região onde os sentidos abrandam.

E terminada a visita aos dois polos citadinos que a limitam, que resta para ver?

A bonita vila de Evoramonte, no alto paisagístico do próprio significado onomástico, tal e qual um postal, muralhada pela cintura e com o branco casario aos pés. Depois sobreiros e azinheiras, e um autoctonismo que vai para além da botânica: uma albufeira sem dimensão cartográfica, uma igreja que vela um cemitério, gado que rumina, um parque de campismo bucólico, as cortadas para Azaruja e Igrejinha – duas aldeias quietas, hospitaleiras – cancelas levantadas de apeadeiros sem janela, forrados a cartazes de touradas, casas no cimo de colinas e outras escancaradas ao vento, portões que fecham muros sem continuidade, postes eléctricos entortados pelo vento, em ondas de fios pretos onde um milhafre se empoleira na simplicidade da observação, um céu muito extenso e capaz, equilibrado sobre o campo aberto, e sol, derramando-se com fartura neste desaguar de rocha erodida.

Mas para mim a coisa mais bela, aquela que traduz a essência de tudo isto e aparece no meio disto tudo, vem neste parágrafo central: surge a seguir ao único viaduto que se cruza, ao lado da auto-estrada, numa zona onde a língua de alcatrão acompanha o vale – é um monte alentejano, de cantaria azul e portão vermelho, que tem um cão enrolado à entrada e feno empilhado em fardos quando é Verão. Nunca distingui quem lá vive, não sei se a cortiça que descansa do outro lado da estrada é do proprietário e se o cajado do rebanho fica a dormir no curral por detrás. Sei que é uma ilha de antigamente, perdida entre rodovias, e que um dia destes tenho de parar o carro e falar com o pastor. Porque se pusermos à frente dos olhos os polegares e os indicadores em rectângulo, sobretudo à hora em que o céu fica laranja, ficamos com o Alentejo emoldurado.

E uma estrada, como uma linha, é um conjunto de pontos, e há placas que assinalam os que aparecem no mapa, mas se uma viagem demora a vontade do condutor, porque não desenhar no mapa o que não tem nome, os poços e as árvores e as pedras que já foram edifício? É que há elementos que nunca vão constar de uma fotografia turística mas onde invariavelmente se pousa o olhar: o tamanho que ocupam é o do espaço à volta, e completam-nos com uma vontade qualquer, parecida com um sorriso sem explicação.

Quem percorrer esta estrada e passar ao largo desta casa talvez não se impressione, mas pode ser que encontre beleza – ou essa espécie de satisfação – no sobreiro que está do lado oposto, no topo de um ermo arrasado, na linha de uma ribeira minúscula, ou então no modo como uma coroa de luzes aquece o horizonte escurecido, na estrada deserta e de noite, com as estrelas por cima.

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2017

 

 

Publicado na FUGAS (PÚBLICO), em

https://www.publico.pt/2017/12/30/fugas/noticia/homenagem-a-um-quilometro-da-n18-1797465?page=/fugas&pos=13&b=stories_a

Gato preto que atravessas a rua,

és preto?, onde se encontra esse tufo de pêlo branco, teu sinal de nascença?, és fugidio, rápido como sombra, como insecto que desaparece entre fenda, não és obeso, deves ser magro, escanzelado, com as costelas desenhadas no lombo, atravessas a rua como uma flecha, lesto, à frente do gesto, porque o fazes?, gato preto, escanzelado, essa rua que atravessas é tua?, foges, ágil e matreiro, que vassoura que te enxota?, que cão te persegue?, persegues tu um rato?, ou um novelo que alguém desenrolou, talvez a criança que brinca contigo?, atravessas a rua devagar, em busca das poças do sol, ao ritmo de um espreguiçar, de que tamanho é a rua?, é campestre, citadina, tem um fim?, ao longe ouve-se um carro, decerto é um motor, será de noite?, a rua é estreita, serpeante em calçada velha, ruela vaporosa, de cheiros densos, gato preto, escanzelado, que atravessas essa rua, atravessas com o balanço certo, com a métrica de um verso, nenhum medo te afugenta, nenhum som te acossa, pertences apenas a quem te chama, ou então a ninguém, ao comprimento debaixo do céu, ao teu instinto, és um gato vadio, lambes uma nódoa no pavimento, reviras a lata de sardinhas aberta entre as ervas da berma, colou-se azeite aos teus bigodes, tens cicatrizes no olho felino, esfanicado, escapas da briga com um gato maior, trazes a pata coxa de um acidente automóvel, estarás com o cio?, és uma gata, espera-te a tua ninhada, miando dentro de um cesto para cães, vais para casa, trepas o muro do quintal, vais escalar as costas do sofá, as tuas unhas já rasgaram  o tecido, a tua dona é idosa, preparou-te a refeição, comerás da tua tigela verde, mas (…) vives esgalgado, atravessas a rua de noite, entre lâmpadas de candeeiros, o sussurro das folhas mortas varre o espaço, um nevoeiro emerge do fundo de um beco, se calhar começou a chover e tu contornas as bátegas, que ambiguidade te agita?, e quantos já terão escrito sobre ti, desprovidos de certezas?, atravessas a rua porque não podes estar parado, moves-te como o pensamento, como uma possibilidade, e ao moveres-te nós ficamos parados no acto que promoves – e por isso me fascinas tu, gato preto que atravessas a rua…

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2017

Hesitação de máquina fotográfica em riste

O vento serpenteia entre as dunas

e as nuvens já cavalgam o horizonte…

Ao largo destes cabos quais tribunas,

mordendo as ondas vindas de defronte,

rochedos vejo – negros e selvagens –

leixões de faces nuas, pontiagudas,

lutando dia e noite co’as voragens

de um mar onde não vagam ondas mudas.

*

Afogo o olhar revendo o mar, as fráguas

que apontam para o céu enevoado,

no entanto, sem saber o que procuro…

*

[Silêncio]

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E vejo naqueloutro cabo escuro

de rochas debruçadas sobre as águas,

o facho de um farol fotografado…

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André Almeida Paiva

2016

Prodígio humano da engenharia

«Os estratos da arriba pendem para o mar, e há uma cavidade cársica num deles, encostada às fundações do edifício: no esboço geotécnico parecia uma sutura inócua, sem repercussões, mas com os anos engordou, disfarçou-se de fenda, e a água foi escorrendo, e o calcário fez efervescência ao ácido carbónico, e o anfiteatro formou-se, qual sarcófago rochoso. Só agora é que um dos pilares enterrados estalou, quando uma onda desavinda esmurrou na rocha; o betão que encapava as vigas era antigo, a pedra que moeram era gémea à do maciço onde escavaram o cabouco, quimicamente melindrosa, com calcite em percentagens altíssimas. A seguir ao estalo o pilar aluiu um centímetro, e foi nesse momento que vieram os primeiros queixumes. Isto porque as tubagens do sistema de canalização estavam deficientes, a água que as inundava era dura, prenhe de carbonato de cálcio, circulava-as um aglutinado de coágulos, e com o abatimento do alicerce (o Teorema de Bernoulli também contribuiu para o caso) um cano das garagens teve um aneurisma, e começou a gotejar. As gotas são ínfimas, nada de alarmante, mas há tendões eléctricos nas redondezas da fuga… Nos restantes andares do prédio não soaram alarmes estruturais, apenas surgiram umas rachas no piso um; o prédio tem dezasseis, sendo que os do topo são exclusivos, pois as vistas privilegiam-nos. O empreiteiro é um dos moradores do imóvel, tem um apartamento no décimo segundo, da sua varanda avista-se a lua do areal: há coisa de uns meses estipulou obras num dos flancos da encosta, em causa estava um prenúncio de derrocada, e os gabiões já chegaram. Agora está a beber um copo de whiskey à janela, pelos vistos há festa de brindes na sala de estar; a tarde também promove o convívio, já quase não há chapéus-de-sol abertos, e um hálito morno atravessa a orla marítima. Nas restantes varandas há gente, banhistas de regresso ao lar arrendado, estendendo as toalhas sobres os corrimãos, famílias de férias, de crianças com os pés cheios de areia, velhos repoltreados de jornal ao colo, um indivíduo a arranjar uma antena parabólica e muitos outros de olhos postos no oceano engomado e azul, na posição da irmã de Dali que o próprio retratou».

Poiso a esferográfica e o caderno, contemplo o mar sem vincos e o esvoaçar de uma gaivota, e acompanho o edifício mastodôntico da base ao topo. A povoação costeira é bonita, fundeou-a um solo fértil e piscatório, mas a impaciência de quem se quer chegar à frente da fila galgou a encosta, e quando o dever autárquico lhe pôs peias, já este colosso se empoleirava sobre a rocha que naturalmente pendia para o mar.

***

Agarro novamente na caneta e abro aspas para um final alternativo.

***

«Soube hoje que o prédio desapareceu, sem ser precisa uma implosão. Foi de noite: primeiro os moradores retiraram a mobília, depois começaram a demolição, tijolo a tijolo, tubo a tubo, cabo a cabo, do último andar até ao rés-do-chão – apartamento a apartamento; as garagens foram desmontadas em conjunto, e no fim, nem vigas havia à mostra: só o buraco, e as casas à volta, todas da mesma altura».

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*André Almeida Paiva

2017

Rua

Pense-se numa rua antes de ser rasgada, muito antes de ser rasgada: num descampado ou num terreno inculto, povoado por estevas, tojeiros e sargaços, aqui e acolá. Então, alguém se apodera desse baldio e amontoam-se pedras segundo um lineamento. Constrói-se um muro e mais adiante outro, sobranceiro a um terceiro, e já são nítidos os bordos de um carreiro. É visível a compartimentação do espaço e o desenho das extremas, e nada existe que não tenha dono, neste momento. Escavaram-se poços, abriram-se leiras, semeou-se a terra, colheu-se o que medrou, deram-se os restolhos ao gado, os casebres velaram as courelas e cada um se cevou durante o tempo que pôde. Houve carroças e muares a puxá-las e alfaias agrícolas a transitar e almocreves e crianças a conduzir os burros albardados e pais de muitas famílias e numerosas. E por tudo isto ter existido houve uma vereda que virou caminho e finalmente estrada, com caixeiros-viajantes a cruzá-la, contrabandistas e assassinos até. As casas multiplicaram-se, construiu-se uma capela, depois um cemitério, e o povoado cresceu e engolfou mais terrenos, ficou coeso, chamou gente e gerou filhos e casais e novos filhos ainda, ganhando tradição e sobretudo identidade. A ruralidade esvaneceu-se. Mas a estrada que cortava esta aldeia era desgrenhada, o piso tortuoso, quando chovia ainda apareciam poças e lama e havia alturas em que, por isso mesmo, o carteiro não vinha. Mandou-se alisar o pavimento, colmatar os sulcos e calcetá-lo, plantaram-se árvores nos bordos, e ergueu-se um coreto ao lado, quando a filarmónica assim o exigiu. As árvores cresceram, as sombras teceram-se à calçada e houve bancos a ser postos paralelos ao passeio. E um dia, quando daquele solo brotou um Homem heróico, baptizaram-na com um nome, e esta ganhou o estatuto de rua, e principal.

Hoje, sentado num desses bancos, enquanto descrevo a história desta rua debruada de tílias, alcatroada e com semáforos e carros de pneus, debato-me com um problema literário (mas certamente ainda mais complexo do que aparenta ser): a rua tem poucos metros, e é fácil percorre-la de um lado ao outro – quantas vezes terei eu de atravessá-la para integrar a sua descrição?

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2015