Os cactos

No Verão dos meus catorze anos comecei a coleccionar cactos. Ou talvez uns meses antes, pois recordo-me de, já por essa altura, a minha avó me repetir o sermão de que os cactos davam azar e não eram plantas de se ter no jardim. Claro que não dava ouvidos a tais prédicas, e a minha colecção chegou a contar com mais de vinte exemplares . Alinhava-os ao longo do muro da eira, sítio soalheiro, e lembro-me de um, o maior entre todos, como embondeiro em miniatura. Mas certa altura eu quis renovar o espólio, afugentar isso que seria a mandriice das férias grandes, e peguei na bicicleta e saí de casa.

Contornei a torre do reservatório, atravessei o túnel da auto-estrada, passei pelo campo de futebol, subi o terreno com o poço, e assim que cheguei à vila virei à esquerda, para o atalho dos choupos, até à rotunda: o horto ficava duzentos metros adiante, mesmo à boca da terceira saída. Não me recordo o que comprei, provavelmente dois desses cactos de folha carnuda, mas sei que fiz questão de guardar duas moedas para um Pastel de Tentúgal (dos da pastelaria junto aos semáforos, na estrada principal). No entanto, pouco depois de iniciar a minha viagem de regresso, à barriga daquela curva insuspeita, a bicicleta derrapou, e fui obrigado a descer do selim. Estilhaços de acidente, vidro semeado pelo alcatrão, e um desses sóis de meio-dia, ao rubro: era o ponto da situação. De cócoras, inspeccionei os estragos,  espreitando ainda para dentro do cantil: tinha a câmara-de-ar da roda de trás furada, não havia ninguém nas redondezas, e esperava-me uma subida de Sísifo até à zona da Fonte Seca. Não tinha outro remédio senão fazer o caminho a pé, e mais valia esquecer o projecto da doçaria conventual.

Assim foi, efectivamente.

O calor não dava tréguas, e foi por causa do cansaço que não ouvi a voz do condutor à primeira:

– Ponha aí a bicicleta que eu dou-lhe boleia até Ribeira de Moinhos.

O agricultor ofereceu-me uma pêra, pois tinha andado a apanhá-las num pomar seu, e abençoado quase por um desses milagre de ficção, lentamente arrepiei caminho, encostado à parte de trás do atrelado daquele tractor, contemplando os olivais.

Em chegando à aldeia agradeci a boleia e entrei no Café Central. Foi nesse instante que reparei na figura sentada no banco de tábuas, do lado de lá da janela, braço esticado e polegar para cima. Vestia todo de ganga, trazia boné vermelho, fora maquinista de camiões, desses que se ausentam temporadas a fio, passava os dias de frente para a estrada a pedir boleia para casa – e tudo isto me contou o homem do balcão, a quem tinha pedido um refrigerante.

– E porquê? – perguntei, honestamente interessado no relato.

– É uma história longa, e já ninguém sabe explicá-la… Sabes o que é que eu acho, rapaz? Esse homem andou uma vida inteira a dar boleias a estranhos, a malta que nunca sabia para que lado queria ir, quando ele só queria regressar a um lugar: aqui: a casa. É isso que eu acho!

Ainda acrescentou:

– Depois morreram-lhe os pais, não casou, filhos nunca… Coitado…

– E onde mora?

– Ali, ao cimo daquela ladeira.

Comprei duas pastilhas elásticas e prendi o saco com os cactos a um dos punhos do guiador. Antes de começar a pedalar, porém, contemplei-o uma última vez: permanecia sentado, de boné enfiado na cabeça, braço em riste, polegar espetado para o céu, e rosto virado para o lado de onde vinham os carros…

No fim da viagem dei conta que um dos cactos murchara até à morte, a bem dizer como muitos dos outros que entretanto fui adquirindo, e cujo tratamento lentamente fui descurando.  Sobram apenas dois, num vaso do pátio, e nem sequer são meus, nem tampouco sou eu que os rego. Talvez o dito da minha avó sempre tivesse algum fundamento, talvez não. Em todo o caso esta história não se passou desta feição, e no dia do sucedido, por muito que o tivesse desejado na altura – e quem sabe, à mercê da esferográfica, ainda deseje –, quando subitamente me vi forçado a empurrar a bicicleta, ninguém parou para me ajudar. Hoje, contudo, o que ocupa verdadeiramente o pensamento não é tanto a mentira literária, mas sim compreender se o homem do boné vermelho – se acaso existir algum homem assim, noutra história que não esta, ou mesmo na vida real –, sempre encontrou o caminho para casa…

*Conto desenvolvido no âmbito de um exercício de escrita subordinado ao tema “Andar à boleia”

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André Almeida Paiva

2020

Gato preto que atravessas a rua,

és preto?, onde se encontra esse tufo de pêlo branco, teu sinal de nascença?, és fugidio, rápido como as sombras, insecto desaparecido entre fendas, não és obeso, deverás ser magro, com as costelas desenhadas no lombo, atravessas a rua qual flecha, quais os teus motivos, gato preto, escanzelado?, que vassoura te enxota?, que cão te persegue?, persegues tu um rato?, um  novelo?, atravessas a rua em busca das poças do sol, ao ritmo de um espreguiçar, és sorrateiro ágil arisco e todos os adjectivos felinos, de que tamanho é a rua?, é campestre, citadina, tem sequer um fim?, pois atravessa-la ao comprido ou pela largura?, ao longe ouve-se um carro, decerto é barulho de um motor, será de noite?, a rua é estreita, serpeante em calçada velha, gato preto, escanzelado, atravessas com o balanço certo, trazes a métrica dos versos, nenhum medo te afugenta, nenhum som te acossa, pertences apenas a quem te chama, ao céu aos astros ao teu instinto, és gato vadio?, lambes as nódoas do pavimento, reviras a lata de sardinhas atirada para as ervas da berma, trazes cicatrizes, bigodes a menos, escapaste de brigas com gatos maiores, coxeias, estarás com o cio?, és uma gata?, espera-te a tua ninhada, miando dentro de um cesto para cães?, vais para casa, trepas o muro do quintal, depois as costas do teu sofá, a tua dona preparou-te a refeição, tens nome, gato que atravessas?, e quantos já terão escrito sobre ti, incautos desprovidos de certezas?, atravessas a rua pois tudo em ti é possibilidade, imprevisível como o pensamento, vais à frente do gesto – pois é -, e por isso me fascinas tu, gato preto que atravessas a rua…

André Almeida Paiva

2017

Rua

Pense-se numa rua antes de ser rasgada, muito antes de ser rasgada: num descampado ou  terreno inculto, povoado por estevas, tojeiros e sargaços também, aqui e acolá. Então alguém se apodera desse baldio, e depois as pedras amontoam-se segundo um lineamento. Constrói-se um muro e mais adiante outro, sobranceiro a um terceiro, e tornam-se nítidos os bordos de um carreiro. E nada existe que não tenha dono, nesse momento. Escavaram-se poços, abriram-se leiras, semeou-se a terra, colheu-se o que vingou, deram-se os restolhos ao gado, os casebres velaram as courelas e cada um se cevou durante o tempo que pôde. Houve carroças e muares a puxá-las e alfaias agrícolas a transitar e almocreves e crianças a conduzir burros albardados e pais de muitas famílias e numerosas. E por tudo isto ter existido a vereda virou caminho e finalmente estrada, com caixeiros-viajantes a cruzá-la, contrabandistas e assassinos até. As casas multiplicaram-se, construiu-se uma capela, depois um cemitério, o povoado cresceu e engolfou mais terrenos, ficou coeso, chamou gente e gerou filhos e casais e novos filhos ainda, ganhando tradição e sobretudo identidade. Mas a estrada que cortava essa aldeia era desgrenhada, o piso um atlas de crateras, quando chovia um lamaçal, e alturas havia em que, por isso mesmo, o carteiro não vinha. Mandou-se alisar o pavimento, colmatar os sulcos e calcetá-lo, plantaram-se árvores nos canteiros e ergueu-se um coreto num largo entretanto surgido, quando a filarmónica assim o exigiu. As árvores cresceram, as sombras teceram-se às pedras e houve bancos a ser postos paralelos ao passeio. E um dia, quando daquele solo brotou um Homem heróico, baptizaram-na com o seu nome, atingindo esta o estatuto de rua, e principal.

Hoje, sentado num desses bancos, enquanto descrevo a história desta rua debruada de tílias, alcatroada com semáforos e carros com pneus, debato-me com um problema literário: quantas vezes terei eu de atravessá-la para integrar a sua descrição?

André Almeida Paiva

2015