Agradecimentos

Agradeço, em primeiro lugar, ter um nome que conheço.

Depois agradeço ter uma chave para abrir a porta de um tecto,

e pão no cesto do pão,

agradeço ter uma torneira de água quente,

e os pés dentro de meias e as meias em sapatos,

ter uma gaveta com roupa

e outras gavetas abaixo dessa com roupa ainda.

Agradeço ter um vaso com uma petúnia

e um vaso decorativo,

e tudo o que é meu e não é indispensável.

Agradeço os verbos dos cinco sentidos,

a vacina que me pode ter oferecido a infância,

e o consultório do dentista.

Agradeço poder usar os músculos para correr atrás de uma bola.

Agradeço nunca ter respirado dentro de uma cela,

nem encontrado a indignidade,

não me ter desviado de alguém no passeio,

com medo de uma afronta,

ou de uma arma que não fosse de brincar.

Agradeço só ter visto as guerras pela televisão

e dois estalos com as mãos serem aplausos.

Agradeço poder folhear uma ementa e preferir;

quanto vale uma preferência?

Agradeço conseguir segurar esta caneta entre dedos,

e saber ler este verso.

Agradeço o meu avô ter-me ensinado a construir barcos de papel,

os meus pais terem gabado os meus desenhos mesmo quando só eram riscos

e terem-me dado um beijo de boa noite.

Agradeço distinguir as nuvens dos traços dos aviões,

os telescópios dos microscópios,

uma piscina de uma poça de água,

agradeço ter visto no museu o quadro que vi no livro da escola,

e que ficou em casa, em cima da secretária, no outro lado do mundo.

Agradeço a faceta burocrática da minha pessoa,

o significado da minha «empregabilidade»,

a faúlha de uma conquista,

e até o ardor do orgulho…

Agradeço poder discordar de um amigo,

de um governo,

e ter votado numa opinião.

Agradeço identificar-me pelo menos um talento,

e confiar na minha intimidade.

Agradeço o sono de um colchão e já ter sonhado fora da almofada.

Agradeço entrar para o lugar do condutor,

ir,

poder tocar o oceano com as mãos,

não ter frio e ter pele de galinha porque algo em mim estremeceu

e dobrar os joelhos na areia sem estar cansado.

Agradeço de modo indigno olhar para a minha caligrafia

e nada de extraordinário me ocorrer sobre ela,

e um aborrecimento não ser fortuito,

e as minhas preocupações não constituírem uma prioridade de ordem nenhuma.

Agradeço poder dizer “não obrigado”…

Agradeço poder chorar sem sentir dor,

e ter pelo menos uma memória de mim,

uma consolação,

e tudo o que por excesso me esqueci de referir.

Agradeço ter vivido até esta palavra:

já foi muito:

e agradeço ainda a injustiça de ser eu

e não outra pessoa naquele momento, naquele local…

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2018

Hesitação de máquina fotográfica em riste

O vento serpenteia entre as dunas,

e as nuvens já cavalgam o horizonte…

E ao largo destes cabos quais tribunas,

mordendo as ondas vindas de defronte,

rochedos vejo – negros e selvagens –

leixões de faces nuas, pontiagudas,

lutando dia e noite co’as voragens

de um mar onde não vagam ondas mudas.

 

Afogo o olhar revendo o mar, as fráguas

que apontam para o céu enevoado,

no entanto, sem saber o que procuro…

 

[Silêncio]

 

 

E vejo naqueloutro cabo escuro

de rochas debruçadas sobre as águas,

o facho de um farol fotografado…

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2016

 

 

 

 

 

As formigas

És um nome, uma mensagem

a vontade mais selvagem…

Tens um som em ti imerso,

um acorde do Universo…

 

Reparo nas formigas sobre as pedras:

negros cortejos formam, afanadas,

afoitas, impassíveis e sinceras,

milimétricas feras dedicadas.

As formigas (…)

regressam aos adustos formigueiros

em negras procissões, hirtos carreiros…

 

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2014

como gotas de chuva nas folhas dos chorões

Espalharam-se as nozes sobre um velho lençol

estendido noutro feito de sol.

Estarão secas?

Não consigo contá-las,

não consigo distingui-las pelas rugas das cascas

nem p’los grãos das suas sombras.

Varre-as a luz da manhã.

Há uma que jaz no chão do pátio, fora do tecido:

foi a que eu pisei, e ao fazê-lo emergiu da casca um pequeno cérebro [amarelo

***

E outras imagens há de singular beleza,

como gotas de chuva nas folhas dos chorões.

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2016