Hesitação de máquina fotográfica em riste

O vento serpenteia entre as dunas

e as nuvens já cavalgam o horizonte…

Ao largo destes cabos quais tribunas,

mordendo as ondas vindas de defronte,

rochedos vejo – negros e selvagens –

leixões de faces nuas, pontiagudas,

lutando dia e noite co’as voragens

de um mar onde não vagam ondas mudas.

*

Afogo o olhar revendo o mar, as fráguas

que apontam para o céu enevoado,

no entanto, sem saber o que procuro…

*

[Silêncio]

*

E vejo naqueloutro cabo escuro

de rochas debruçadas sobre as águas,

o facho de um farol fotografado…

*

*

*

*

André Almeida Paiva

2016

As formigas

És um nome, uma mensagem,

a vontade mais selvagem…

Tens um som em ti imerso,

um acorde do Universo…

*

Reparo nas formigas sobre as pedras:

negros cortejos formam, afanadas,

afoitas, impassíveis e sinceras,

milimétricas feras dedicadas.

*

As formigas (…)

regressam aos adustos formigueiros

em negras procissões, hirtos carreiros…

*

*

*

*

André Almeida Paiva

2014

como gotas de chuva nas folhas dos chorões

Espalharam-se as nozes sobre um velho lençol

estendido noutro feito de sol.

Estarão secas?

Não consigo contá-las,

não consigo distingui-las pelas rugas das cascas

nem p’los grãos das suas sombras.

Varre-as a luz da manhã.

Há uma que jaz no chão do pátio, fora do tecido:

foi a que eu pisei, e ao fazê-lo emergiu da casca um pequeno cérebro [amarelo

***

E outras imagens há de singular beleza,

como gotas de chuva nas folhas dos chorões.

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2016