O aniversário

Na tarde de 1 de Novembro do ano de 1889, numa sala decorada com os motivos da classe aristocrática alemã, uma criança desenhava um mapa a lápis de cera.

A luz de Outono rompia das janelas com força, iluminando o tapete persa que havia ao centro, pelo que a criança desenhava no recanto onde havia sombra, sob o canapé de estofos bordados a flores: dobrava os joelhos e os pés baloiçavam no ar, a barriga espalmava-se no chão, as mãos desarrumavam os lápis de cor e o rosto erguia-se atento, com a língua de fora, numa busca primeira da perfeição.

Desenhava concentrada e longe dos olhares dos adultos, que tomavam chá no salão de convidados, decorado a mais tapeçarias e lustres pantagruélicos. Volta e meia movia o pescoço para cima, em busca dos contornos de um mapa recente, pendurado na parede: um mapa que um tio navegador oferecera de prenda à família onde cabia o planeta inteiro – a terra e os mares – com as fronteiras mais recentes e as ilhas mais remotas.

Não era especialmente talentosa a desenhar pela deriva da imaginação, mas gostava de copiar objectos e animais para depois os colorir; quem sabe esta criança não poderia ter sido um bom pintor de retratos, ou ter tido outra profissão até…

Aprendera na escola alguns dos nomes do Mundo, e já pintara todos os oceanos e o continente africano. Como o tio lhe contara histórias de África, das estepes e selvas e criaturas exóticas, pintou-a de um laranja muito forte. Agora pintava a Europa, e a zona do país onde sabia viver.

A certa altura, depois de coloridas as manchas da folha – a Europa e a Ásia de vermelho, e as Américas e Austrália de castanho – olhou para o desenho muito impressionada, quase mesmo estupefacta. E pousando os lápis de cera no chão levantou-se de um susto, furtivamente infiltrando-se em nova sala faustosa, em busca do estojo de costura da mãe.

Com uma tesoura recortou os continentes pelos bordos que traçara, e dispô-los sobre o chão, nas posições em que sempre os conhecera. Depois inventou várias brincadeiras – o aborrecimento disparara-lhe a criatividade – e numa delas representou o mundo ao contrário, com os continentes de pernas para o ar, encaixados nos oceanos também revirados. Num momento, no entanto, quando tudo ocupava a posição original, e quando olhava para as coisas como quem pensa depois de observar muito, experimentou algo radical, e provavelmente proibido: dobrou as Américas pela zona central, onde o papel era muito fino, puxou a parte do norte para baixo, de modo a acompanhar a curva de África, e encaixou a parte do sul na barriga do continente que pintara de laranja.

Confortavelmente satisfeita, girou as restantes peças do puzzle, e chegou a um resultado espantoso, onde a Europa e a Ásia também se juntavam ao conjunto estabelecido, e onde se podia também anexar a Austrália, e um pouco do que havia a sul, que era um pedaço de terra cujo nome esquecera. Entusiasmada, agarrou um punhado de alfinetes do estojo de costura, prendeu o seu mapa num novo e diferente – o de um supercontinente – e foi mostrá-lo aos adultos, com uma pergunta a saltar-lhe debaixo da língua:

“Não sei se  alguém já pensou no mesmo que eu, ou se isto tem mesmo um significado importante – mas e se os continentes estivessem unidos?”

Incomodados com o distúrbio do petiz, os adultos mostraram-se desinteressados. A mãe aconselhou-o mesmo a abandonar a sala, soprando-lhe uma resposta ambígua, mas certamente desencorajadora:

– Filho, os continentes sempre estiveram onde estão, onde aparecem nos mapas.

Desincentivada, essa criança não fez mais nenhum desenho essa tarde. Durante algum tempo foi sentar-se à janela, que dava para o pátio da casa do lado. O vizinho, Alfred Wegener, colega de escola mas do ano dos mais novos, fazia anos. Nunca se conheceram, e nunca foram à festa um do outro…

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André Almeida Paiva

2017

(ver I https://www.andrealmeidapaiva.pt/projectos/)