Rua III

Só que a folha voou para bem alto, na senda de uma nuvem, e o homem pôs a trouxa às costas, enxotando o cão. Então desatei a escrever, não sei se em linha única, não sei se ignorando os acentos e os sinais de pontuação. Porque agora já nada importava e era a esferográfica que ditava, sobre o papel, as ordens do espaço… Alugou-se maquinaria pesada, dessa de ganchos de aço, cilindros metálicos e engrenagens hidráulicas, e as carcaças do povoado foram arrasadas com a facilidade com que alguém alisa uma figura de areia. Nenhuma raiz sobrou por arrancar e tudo se processou a um ritmo vibrante, alucinante, estonteante – sincopado e ritmado – que se sobrepunha à velocidade da minha escrita. Foi assim que surgiu uma auto-estrada no lugar desse caminho de centímetros… Uma língua de asfalto reluzente, de quatro vias com guias sonoras e bermas sinalizadas, com separador central enfeitado de cevadilhas de pétala cor-de-rosa, trancada por viadutos, bordejada de vertentes com gabiões e malhas de protecção, com manilhas para drenagem de águas pluviais e caminhos de acesso rural protegidos por cercas de arame farpado. Um vaivém de pneumáticos, de tráfego crescente, coagulante junto às saídas e entradas de faixa, açodado de apitadelas e mãos no volante… Eu ensurdecia, e escrevia mais rápido, de olhos fechados, como quem foge, vincando as palavras nas páginas, desenterrando terrenos antigos – os terrenos da descrição – rememorando, revolvendo, recordando esse largo que ficava na aldeia da minha avó, o coreto do jardim-de-infância, as casas gandaresas de frente para a estrada, o cão sem pátria ao centro do campina, as copas das tílias da cidade, em rendas de prata…

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O susto foi tremendo, desses que só um disparo do nervo vago provoca, pois um camião aproximava-se a toda à brida – faróis predatórios, grelha como bocarra assassina – e eu sentava-me em plena auto-estrada, imerso na ficção, cabeça vertida sobre o caderno, de pálpebras cerradas, e só por milagre é que ergui o pescoço, evitando o atropelamento, escapando à descrição… À descrição que agora, parece-me, segue sozinha – real – em direcção a um destino que já não me pertence.

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André Almeida Paiva

2018

(ver Rua https://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua/);

(ver Rua IIhttps://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua-ii/)