Um contra um

A bola foi recebida com o peito e chutada antes que tocasse no chão. O protagonista do lance gritou “Golo!” e o defensor ficou estático, de pernas quase em espargata, com uma mão apoiada no pavimento de pedra. Era a terceira vez que se defrontavam nessa semana e hoje chovia desalmadamente. O guarda-redes que sofrera o golo depressa respondeu com um chuto enviesado, irritadiço, que ao bater no bengaleiro o fez deslizar quase um metro. Em tom de motejo, o defensor gritou “Poste”, de imediato tocando a bola com o pé esquerdo em direcção ao meio-campo. Estava 7-4; o primeiro a marcar dez golos ganhava. O que se preparava para iniciar o contra-ataque era esquerdino e o opositor, que vencera as duas últimas partidas, jogava com os dois pés. Vertiginosa, a jogada que se seguiu envolveu uma simulação e uma finta incompleta, corolada por um remate indefensável, e em tudo imprevisível. “Golo! 8-4!”. A chuva caía fria e com mais fúria. “Devias ter posto o poste no sítio antes de teres atacado” reclamou aquele que perdia, enquanto ia buscar a bola, que rolara para fora do terreno de jogo. As regras ditavam que não se podia defender com as mãos e cada jogador deveria iniciar o contra-ataque a partir da sua baliza. E as tabelas valiam; batendo a bola no rodapé ou no tecto, desde que esta se imiscuísse entre postes, o golo era contabilizado. De marcha atrás, aguçado, o autor do golo regressara à sua baliza, reposicionando o suporte de guarda-chuvas. O oponente, solto, dirigiu-se para um dos flancos. Como o defesa não saiu de entre os postes, o atacante optou por um remate de longe, furibundo, mas à figura. O guarda-redes amparou-o pontapeando a bola sem cerimónias, com a língua de fora da boca, naquele que era um gesto de concentração muito seu. O efeito rotativo produzido foi tal que o esférico descreveu um arco perfeito, passando sobre a cabeça do adversário, muito adiantado no terreno. “9-4! Mais um e ganho!” E neste instante trágico-cómico, num frémito do temporal, as bátegas atingiram o vidro da porta como aplausos de estádio. “Vou só apertar os atacadores…” avisou aquele que vencia, ajoelhando-se. Enquanto um atava os cordões das sapatilhas, o outro despiu o casaco, colocando a bola sobre o pé direito. Segundos passados ambos estavam a postos, de músculos em movimento, coalescendo numa das alas. Desta vez, embora novamente raivoso, o remate do que perdia levou selo de golo, embatendo certeiro e com força na parede verde tropa que se estendia entre o bengaleiro e o vaso com a planta. “9-5 para ti”, rectificou aquele que havia disparado o tiro de desforra, encaminhando-se para junto da sua baliza de marcha atrás, numa espécie de deslizar com os pés; o outro, fitando-o, começou também a correr, com a bola colada ao ritmo dos passos, convicto. A certa altura o oponente precipitou-se para o dono da cavalgada e a disputa acendeu-se, roçando o casaco do fato-de-treino de um na camisola do outro. Num gesto fortuito, todavia, a bola caiu para o pé esquerdo do atacante, tocando-a ele de novo com o calcanhar, e projectando-a para a parede das caixas de correio, num estrondo metálico; depois do ressalto, caprichosa, a redondinha saltitou até ao lado para onde o avançado rodara. O opositor seguiu-lhe o gesto mas não foi tão desenvolto: o outro esticou a perna e – foi um toque de génio! – empurrou-a. A bola, que era de motivos clássicos, aos hexágonos brancos e pretos, entrou… “Ganhei!” gritou o vencedor, esbracejando vitorioso, enquanto o derrotado, de joelhos abertos sobre as lajes de mármore, agarrava a camisola pelo colarinho suado. Nesse compasso de celebração, houve um vulto de ar sisudo e engabardinado que abriu a porta de vidro, anunciando a sua presença com um “Meninos, outra vez no hall do prédio?!”. A chuva caía insistente e a noite abatera-se sobre a cidade horas atrás. “Ganhei o jogo!” rematou o que estava de pé, com a bola debaixo do braço, não sabendo o que dizer ao homem, que entretanto os contornara de raspão, desaparecendo pelas escadas. “Mas está 2-1 para mim” corroborou o perdedor, acrescentando, em tom cansado “Vou para casa… Antes do jantar ainda tenho de ir tomar banho…”. “Mas amanhã jogamos outra vez, não é?”, reiterou o dono da bola, já ciente da resposta. Chamaram o elevador e um dos dois segurou a porta enquanto o outro pegou nos tapetes que serviam de postes à outra baliza. “Qual deles é o de tua casa?”, perguntou o que os transportava. “É este” disse o outro, apontando.

E quando o elevador chegou ao terceiro andar, estes vizinhos, que eram crianças, despediram-se, até ao dia seguinte.

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2016