4600 milhões de anos até hoje

A fenda alargou, estendeu-se pelo chão barrento, e o bloco dividiu-se em dois. Recolhidas as cunhas, pousados os maços, os homens tomaram fôlego, limpando o suor do rosto: os seus nomes não se sabem, não constam dos compêndios de História… Mas do bloco tombado esses homens talharam a pedra que hoje sustém todas as outras.

 

No princípio, recuando aos milhões das eras, não havia estes vales e montanhas, estas estradas e cidades: a região existia imersa como outra região, aquática-salgada-oceânica – uma gigantesca bacia de sedimentos – habitada por seres de corpo segmentado, hoje petrificados em expositores de museus. Extinguiram-se as trilobites, e também esse mar, as rochas que o enchiam noutras rochas se transformaram – o argilito em ardósia, o calcário em mármore – e de novo se inauguraram os ciclos tectónicos.

O tempo não muda de velocidade, excepto talvez quando o tentamos compreender. E enquanto o Homem não entendeu o tempo das pedras partiu-as, dimensionou-as, esculpindo-as para erguer templos e construir impérios. Os romanos governaram um dos mais prósperos, e nele havia uma província – a augusta Lusitânia – em que a capital se fez de mármore, proveniente desse lugar cujo nome já surgia na boca dos viajantes.

Modificaram-se as gentes de Estremoz, os trajes e os costumes. Isto mais tarde, porque a técnica sofreu melhorias, a extracção tornou-se rápida, a torre de menagem cresceu e as fachadas marmóreas começaram a alinhar-se pela vila em crescendo. Pedra alva, nobre, brilhante como grão de açúcar, esventrada à terra pelo pedreiro especializado, dentro do fosso cada vez mais profundo. Por isso el rei D. Manuel I ordenou a construção de um convento a seu estilo, gótico e ogival, de motivos naturalistas: um convento para retiro de cavaleiros e morada de freiras de clausura, da Ordem de Malta.

Houve o tempo para admirar a chegada do renascimento, e o de outras arquitecturas, que aumentaram a cércea, robustecendo-a, e acrescentando divisões ao edifício. Muitas pessoas caminharam sobre os seus pisos ladrilhados, e outras sob ele se sepultaram. Entre claustros se escreveram páginas de cultura e tradição, da olaria à culinária, e porventura uma ave terá feito o seu ninho no recanto mais abrigado do capitel. E mesmo depois do sismo de 1755 a vida conventual continuou a sua lenta oração, na mesma solitude dos séculos passados.

A última freira faleceu no final do século XIX, deixando o espaço de ser convento. Ficaram nos frisos as cruzes Maltezas, nos tectos os frescos decorativos – ficou o fontanário ao centro do jardim – e quando a ordem foi dada pintaram-se palavras nas cantarias. O monumento converteu-se em Hospital, e assim se manteve até à década de 90.

À volta do convento, em redor da cidade e povoados vizinhos, as pedreiras foram alastrando, espalhando economia e estreitando os seus buracos, por vezes desordenadamente. Paredes nuas, verticais, listradas de argila do solo de cima, que servia para vinhas e olivais: lentamente o Homem descia, cada vez mais tecnológico, lentamente a pedra se içava à paciência das gruas.

Chegaram os anos burocráticos, e demorou algum tempo até que o Museu se inaugurasse. A exposição principal ocupou a sala da antiga Enfermaria, e o dinossauro infiltrou-se entre as arcadas, na parte de fora. Em 2005 abriram-se as portas, e o público pôde visitar um Museu sobre a Terra, geológico, experimental e didáctico, onde a ciência do tempo mais demorado aparecia explicada à velocidade das palavras.

 

É um dos museus que engloba a rede Ciência Viva. Chama-se Centro Ciência Viva de Estremoz, e está hoje aberto, para contar a história dos últimos 4600 milhões de anos – que ditos assim de chofre, numa linha de texto apenas, nem parecem muito tempo…

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2018

 

 

Publicado na SAPO Viagens, em

https://viagens.sapo.pt/viajar/bilhete-postal/artigos/4600-milhoes-de-anos-ate-hoje

Homenagem a um quilómetro da N18

Estremoz-Évora: neste troço a N18 segue paralela à A6, galgando uma cauda da Serra D’Ossa, que aqui se impõe como relevo principal. No entanto, à excepção de um cortejo de curvas nas vizinhanças da ribeira que é sazonal, é uma estrada rápida, contrariando o estereótipo da região onde os sentidos abrandam.

E terminada a visita aos dois polos citadinos que a limitam, que resta para ver?

A bonita vila de Evoramonte, no alto paisagístico do próprio significado onomástico, tal e qual um postal, muralhada pela cintura e com o branco casario aos pés. Depois sobreiros e azinheiras, e um autoctonismo que vai para além da botânica: uma albufeira sem dimensão cartográfica, uma igreja que vela um cemitério, gado que rumina, um parque de campismo bucólico, as cortadas para Azaruja e Igrejinha – duas aldeias quietas, hospitaleiras – cancelas levantadas de apeadeiros sem janela, forrados a cartazes de touradas, casas no cimo de colinas e outras escancaradas ao vento, portões que fecham muros sem continuidade, postes eléctricos entortados pelo vento, em ondas de fios pretos onde um milhafre se empoleira na simplicidade da observação, um céu muito extenso e capaz, equilibrado sobre o campo aberto, e sol, derramando-se com fartura neste desaguar de rocha erodida.

Mas para mim a coisa mais bela, aquela que traduz a essência de tudo isto e aparece no meio disto tudo, vem neste parágrafo central: surge a seguir ao único viaduto que se cruza, ao lado da auto-estrada, numa zona onde a língua de alcatrão acompanha o vale – é um monte alentejano, de cantaria azul e portão vermelho, que tem um cão enrolado à entrada e feno empilhado em fardos quando é Verão. Nunca distingui quem lá vive, não sei se a cortiça que descansa do outro lado da estrada é do proprietário e se o cajado do rebanho fica a dormir no curral por detrás. Sei que é uma ilha de antigamente, perdida entre rodovias, e que um dia destes tenho de parar o carro e falar com o pastor. Porque se pusermos à frente dos olhos os polegares e os indicadores em rectângulo, sobretudo à hora em que o céu fica laranja, ficamos com o Alentejo emoldurado.

E uma estrada, como uma linha, é um conjunto de pontos, e há placas que assinalam os que aparecem no mapa, mas se uma viagem demora a vontade do condutor, porque não desenhar no mapa o que não tem nome, os poços e as árvores e as pedras que já foram edifício? É que há elementos que nunca vão constar de uma fotografia turística mas onde invariavelmente se pousa o olhar: o tamanho que ocupam é o do espaço à volta, e completam-nos com uma vontade qualquer, parecida com um sorriso sem explicação.

Quem percorrer esta estrada e passar ao largo desta casa talvez não se impressione, mas pode ser que encontre beleza – ou essa espécie de satisfação – no sobreiro que está do lado oposto, no topo de um ermo arrasado, na linha de uma ribeira minúscula, ou então no modo como uma coroa de luzes aquece o horizonte escurecido, na estrada deserta e de noite, com as estrelas por cima.

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2017

 

 

Publicado na FUGAS (PÚBLICO), em

https://www.publico.pt/2017/12/30/fugas/noticia/homenagem-a-um-quilometro-da-n18-1797465?page=/fugas&pos=13&b=stories_a