Gato preto que atravessas a rua,

és preto?, onde se encontra esse tufo de pêlo branco, teu sinal de nascença?, és fugidio, rápido como sombra, como insecto que desaparece entre fenda, não és obeso, deves ser magro, escanzelado, com as costelas desenhadas no lombo, atravessas a rua como uma flecha, lesto, à frente do gesto, porque o fazes?, gato preto, escanzelado, essa rua que atravessas é tua?, foges, ágil e matreiro, que vassoura que te enxota?, que cão te persegue?, persegues tu um rato?, ou um novelo que alguém desenrolou, talvez a criança que brinca contigo?, atravessas a rua devagar, em busca das poças do sol, ao ritmo de um espreguiçar, de que tamanho é a rua?, é campestre, citadina, tem um fim?, ao longe ouve-se um carro, decerto é um motor, será de noite?, a rua é estreita, serpeante em calçada velha, ruela vaporosa, de cheiros densos, gato preto, escanzelado, que atravessas essa rua, atravessas com o balanço certo, com a métrica de um verso, nenhum medo te afugenta, nenhum som te acossa, pertences apenas a quem te chama, ou então a ninguém, ao comprimento debaixo do céu, ao teu instinto, és um gato vadio, lambes uma nódoa no pavimento, reviras a lata de sardinhas aberta entre as ervas da berma, colou-se azeite aos teus bigodes, tens cicatrizes no olho felino, esfanicado, escapas da briga com um gato maior, trazes a pata coxa de um acidente automóvel, estarás com o cio?, és uma gata, espera-te a tua ninhada, miando dentro de um cesto para cães, vais para casa, trepas o muro do quintal, vais escalar as costas do sofá, as tuas unhas já rasgaram  o tecido, a tua dona é idosa, preparou-te a refeição, comerás da tua tigela verde, mas (…) vives esgalgado, atravessas a rua de noite, entre lâmpadas de candeeiros, o sussurro das folhas mortas varre o espaço, um nevoeiro emerge do fundo de um beco, se calhar começou a chover e tu contornas as bátegas, que ambiguidade te agita?, e quantos já terão escrito sobre ti, desprovidos de certezas?, atravessas a rua porque não podes estar parado, moves-te como o pensamento, como uma possibilidade, e ao moveres-te nós ficamos parados no acto que promoves – e por isso me fascinas tu, gato preto que atravessas a rua…

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2017