Rua II

Mas o autocarro buzinava e eu entrei, levando comigo uma folha de tília, que à pressa espalmei entre as folhas do caderno. E durante a viagem remoí na pergunta em suspenso, até que hoje, neste tempo de agora, regressei a essa rua, que já só é uma linha da largura de dois passos, conservando nesse homem o seu único transeunte. Cheguei de autocarro – que dia é hoje? – mas o veículo estacou a marcha longe da antiga paragem, na barriga de uma curva em terra batida. Porque já não havia paragem nem bancos, e a natureza havia regressado, lenta ritmada precisa, como uma sinfonia que cresce em silêncio. Nenhuma parcela de terra exista que tenha dono, agora. As gramíneas atapetaram o que era asfalto e piso calcetado, os muros esbarrondaram-se à séria gravidade do abandono, das fachadas das casas escorre o negrume dos limos secos, há cadeados em portões, fechaduras trancadas de ferrugem, cacos de vasos não regados e teias de aranhas nas caixas dos correios. Escuta-se o raspar metálico de um moinho desconjuntado e ainda o trilar de um pardal pousado num fio sem electricidade. Não há qualquer noção de propriedade, o homem que ali habita nem sequer é oriundo da região, na cova da mão carrega um livro de Jean-Jacques Rousseau, e quando o saudei elucidou-me quanto ao facto de carregar as suas tralhas numa mochila, de nada em volta lhe pertencer, da natureza não se estabelecer – e esclareceu-me ainda quanto ao cão, que era sem paradeiro, vagabundo dessas estradas que se ocultam dos mapas, e que apenas o seguia na expectativa de um osso. Mas… Folheio o caderno até às linhas de texto do passado (ainda não tirei a tampa à caneta para escrever), leio apenas, sôfrego incrédulo minucioso, revendo os elementos desapercebidos. Um aro de cinzas desenha-se onde se erguia o coreto, sem dúvida que se arrancaram as tábuas e as queimaram, um projéctil destruiu os vidros tricolores dos semáforos, trepados agora pela obstinação das heras, nos cemitérios a vegetação excede a altura das campas, arrancou-se o relógio da torre sineira, não há números nas portas nem legendas debaixo dos sinais e a placa com o topónimo desbotou ao calor e à geada.

Agacho-me, pego num graveto, distraio-me num desenho que são só riscos, um vento rasante rouba-me a folha de tília de entre as folhas de papel, logo a resgato em pleno voo, analiso-a nas suas páginas inferior e superior, verdes vivas de nervuras – preciosíssima folha, esta – procuro uma resposta, mas ao invés pergunto-me – pergunto – será que nesta folha ficou guardada toda a descrição da antiga rua?

*

*

*André Almeida Paiva

2018

(ver Rua – https://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua/)