Rua III

Só que a folha voou para bem alto, na senda de uma nuvem, e o homem pôs a trouxa às costas, enxotando o cão. Então desatei a escrever, não sei se em linha única, não sei se ignorando os acentos e os sinais de pontuação. Porque agora já nada importava e era a esferográfica que ditava, sobre o papel, as ordens do espaço… Alugou-se maquinaria pesada, dessa de ganchos de aço, cilindros metálicos e engrenagens hidráulicas, e as carcaças do povoado foram arrasadas com a facilidade com que alguém alisa uma figura de areia. Nenhuma raiz sobrou por arrancar e tudo se processou a um ritmo vibrante, alucinante, estonteante – sincopado e ritmado – que se sobrepunha à velocidade da minha escrita. Foi assim que surgiu uma auto-estrada no lugar desse caminho de centímetros… Uma língua de asfalto reluzente, de quatro vias com guias sonoras e bermas sinalizadas, com separador central enfeitado de cevadilhas de pétala cor-de-rosa, trancada por viadutos, bordejada de vertentes com gabiões e malhas de protecção, com manilhas para drenagem de águas pluviais e caminhos de acesso rural protegidos por cercas de arame farpado. Um vaivém de pneumáticos, de tráfego crescente, coagulante junto às saídas e entradas de faixa, açodado de apitadelas e mãos no volante… Eu ensurdecia, e escrevia mais rápido, de olhos fechados, como quem foge, vincando as palavras nas páginas, desenterrando terrenos antigos – os terrenos da descrição – rememorando, revolvendo, recordando esse largo que ficava na aldeia da minha avó, o coreto do jardim-de-infância, as casas gandaresas de frente para a estrada, o cão sem pátria ao centro do campina, as copas das tílias da cidade, em rendas de prata…

***

O susto foi tremendo, desses que só um disparo do nervo vago provoca, pois um camião aproximava-se a toda à brida – faróis predatórios, grelha como bocarra assassina – e eu sentava-me em plena auto-estrada, imerso na ficção, cabeça vertida sobre o caderno, de pálpebras cerradas, e só por milagre é que ergui o pescoço, evitando o atropelamento, escapando à descrição… À descrição que agora, parece-me, segue sozinha – real – em direcção a um destino que já não me pertence.

*

*

*

*

André Almeida Paiva

2018

(ver Rua https://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua/);

(ver Rua IIhttps://www.andrealmeidapaiva.pt/2018/rua-ii/)

Rua

Pense-se numa rua antes de ser rasgada, muito antes de ser rasgada: num descampado ou num terreno inculto, povoado por estevas, tojeiros e sargaços, aqui e acolá. Então, alguém se apodera desse baldio e amontoam-se pedras segundo um lineamento. Constrói-se um muro e mais adiante outro, sobranceiro a um terceiro, e já são nítidos os bordos de um carreiro. É visível a compartimentação do espaço e o desenho das extremas, e nada existe que não tenha dono, neste momento. Escavaram-se poços, abriram-se leiras, semeou-se a terra, colheu-se o que medrou, deram-se os restolhos ao gado, os casebres velaram as courelas e cada um se cevou durante o tempo que pôde. Houve carroças e muares a puxá-las e alfaias agrícolas a transitar e almocreves e crianças a conduzir os burros albardados e pais de muitas famílias e numerosas. E por tudo isto ter existido houve uma vereda que virou caminho e finalmente estrada, com caixeiros-viajantes a cruzá-la, contrabandistas e assassinos até. As casas multiplicaram-se, construiu-se uma capela, depois um cemitério, e o povoado cresceu e engolfou mais terrenos, ficou coeso, chamou gente e gerou filhos e casais e novos filhos ainda, ganhando tradição e sobretudo identidade. A ruralidade esvaneceu-se. Mas a estrada que cortava esta aldeia era desgrenhada, o piso tortuoso, quando chovia ainda apareciam poças e lama e havia alturas em que, por isso mesmo, o carteiro não vinha. Mandou-se alisar o pavimento, colmatar os sulcos e calcetá-lo, plantaram-se árvores nos bordos, e ergueu-se um coreto ao lado, quando a filarmónica assim o exigiu. As árvores cresceram, as sombras teceram-se à calçada e houve bancos a ser postos paralelos ao passeio. E um dia, quando daquele solo brotou um Homem heróico, baptizaram-na com um nome, e esta ganhou o estatuto de rua, e principal.

Hoje, sentado num desses bancos, enquanto descrevo a história desta rua debruada de tílias, alcatroada e com semáforos e carros de pneus, debato-me com um problema literário (mas certamente ainda mais complexo do que aparenta ser): a rua tem poucos metros, e é fácil percorre-la de um lado ao outro – quantas vezes terei eu de atravessá-la para integrar a sua descrição?

 

 

 

 

André Almeida Paiva

2015