Prodígio humano da engenharia

«Os estratos da arriba pendem para o mar, e há uma cavidade cársica num deles, encostada às fundações do edifício: no esboço geotécnico parecia uma sutura inócua, sem repercussões, mas com os anos engordou, disfarçou-se de fenda, e a água foi escorrendo, e o calcário fez efervescência ao ácido carbónico, e o anfiteatro formou-se, qual sarcófago rochoso. Só agora é que um dos pilares enterrados estalou, quando uma onda desavinda esmurrou na rocha; o betão que encapava as vigas era antigo, a pedra que moeram era gémea à do maciço onde escavaram o cabouco, quimicamente melindrosa, com calcite em percentagens altíssimas. A seguir ao estalo o pilar aluiu um centímetro, e foi nesse momento que vieram os primeiros queixumes. Isto porque as tubagens do sistema de canalização estavam deficientes, a água que as inundava era dura, prenhe de carbonato de cálcio, circulava-as um aglutinado de coágulos, e com o abatimento do alicerce (o Teorema de Bernoulli também contribuiu para o caso) um cano das garagens teve um aneurisma, e começou a gotejar. As gotas são ínfimas, nada de alarmante, mas há tendões eléctricos nas redondezas da fuga… Nos restantes andares do prédio não soaram alarmes estruturais, apenas surgiram umas rachas no piso um; o prédio tem dezasseis, sendo que os do topo são exclusivos, pois as vistas privilegiam-nos. O empreiteiro é um dos moradores do imóvel, tem um apartamento no décimo segundo, da sua varanda avista-se a lua do areal: há coisa de uns meses estipulou obras num dos flancos da encosta, em causa estava um prenúncio de derrocada, e os gabiões já chegaram. Agora está a beber um copo de whiskey à janela, pelos vistos há festa de brindes na sala de estar; a tarde também promove o convívio, já quase não há chapéus-de-sol abertos, e um hálito morno atravessa a orla marítima. Nas restantes varandas há gente, banhistas de regresso ao lar arrendado, estendendo as toalhas sobres os corrimãos, famílias de férias, de crianças com os pés cheios de areia, velhos repoltreados de jornal ao colo, um indivíduo a arranjar uma antena parabólica e muitos outros de olhos postos no oceano engomado e azul, na posição da irmã de Dali que o próprio retratou».

Poiso a esferográfica e o caderno, contemplo o mar sem vincos e o esvoaçar de uma gaivota, e acompanho o edifício mastodôntico da base ao topo. A povoação costeira é bonita, fundeou-a um solo fértil e piscatório, mas a impaciência de quem se quer chegar à frente da fila galgou a encosta, e quando o dever autárquico lhe pôs peias, já este colosso se empoleirava sobre a rocha que naturalmente pendia para o mar.

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Agarro novamente na caneta e abro aspas para um final alternativo.

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«Soube hoje que o prédio desapareceu, sem ser precisa uma implosão. Foi de noite: primeiro os moradores retiraram a mobília, depois começaram a demolição, tijolo a tijolo, tubo a tubo, cabo a cabo, do último andar até ao rés-do-chão – apartamento a apartamento; as garagens foram desmontadas em conjunto, e no fim, nem vigas havia à mostra: só o buraco, e as casas à volta, todas da mesma altura».

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*André Almeida Paiva

2017